quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O BRASIL PERDE D. PAULO


Tenho pena daqueles mais novos que ao virem a ampla cobertura dada hoje pela Globo à morte de D. Paulo Evaristo Arns possam vir a perguntar: quem foi esse cara?

A minha geração, nascida nos anos 50, teve alguns ídolos, coisa a cada dia mais escassa em nosso país. D. Paulo foi um dos meus. O seu trabalho pastoral foi extremamente misericordioso ou seja, voltado para os desvalidos, voltado para os moradores da periferia, formando Comunidades Eclesiais de Base, sempre voltado para a defesa dos Direitos Humanos, de forma cristã e não ideológica, da forma com que essa palavra vem sendo usada ultimamente. 

Fundou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, e tinha as suas atividades políticas vinculadas à sua fé e práticas religiosas. Não usava a Igreja para fazer prevalecer as suas convicções. Quando jovem, revoltado com a Ditadura Militar implantada no Brasil, a voz de D. Paulo nos enchia de esperança. Afinal, ele foi o Bispo da Esperança e nós éramos os Aprendizes da Esperança, como dizia a música que nos fazia chorar, na voz de Fafá de Belém, música essa feita em homenagem ao Senador Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas, uma das vozes que se levantou em favor das Diretas Já, o movimento civil mais belo que se viu nos últimos anos, entre 83 e 84.

Que a voz do continente
eles tem aqui e agora
estrelas combatentes
que anunciam a aurora
São pombas irrequietas,
são raízes do amanhã
O sonho brasileiro
eles plantam nas manhãs

Nas fábricas, nos muros,
nas janelas, nos terraços,
nas ruas e nas praças,
nos teatros, nos arados
É festa e é trabalho
e é luta e é dança
São homens, mulheres
aprendizes da esperança


Como todo bom pastor, D. Paulo tinha o espírito altamente ecumênico. Na década de 70, durante a ditadura, lutou bravamente contra a tortura no país, ao lado do Rabino Henri e foi em parceria com o Rev. Jaime Wright, um pastor da Igreja Presbiteriana Unida, a quem D. Paulo chamava de “meu bispo protestante”, que fez, entre 1979 e 1985, um belíssimo trabalho clandestino de tiragem de cópias de todos os processos existentes contra presos políticos, catalogando um por um, e remetendo esse material para organismos de Direitos Humanos no exterior, como forma de evitar que algum preso pudesse desaparecer. 

Esse trabalho resultou no livro Brasil: Nunca Mais. Também foi um dos organizadores do movimento Tortura Nunca Mais. Em Salvador tive o privilégio de trabalhar como Secretário Executivo na Fundação 2 de Julho e como diretor do Colégio 2 de Julho. Essa Fundação foi criada pelo Rev. Jaime Wright. Sob a coordenação do Professor Josué da Silva Mello, lá realizávamos a Conferência Jaime Wright de Direitos Humanos. Em uma de suas versões D. Paulo foi homenageado e não pode comparecer por já estar em idade avançada. A nosso pedido o filho Clebinho fez uma entrevista com ele lá em SP e nos mandou o vídeo. Clebinho ficou encantado com o entrevistado, com a sua doçura e seu carisma. 

Perdemos uma referência em termos de espírito misericordioso e de liberdade democrática.

2 comentários:

  1. Muito boa matéria Cléber,com poucas palavras fez com que Dom Paulo ficasse conhecido de maneira mais próxima.

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  2. É certo, Túlio. No meu caso, no episódio da campanha das " Eleições Diretas já", eu ainda estava terminando meu tempo no Exterior, antes de me aposentar em final de 1985. Algumas das informações prestadas nesta matéria do excelente blog embelisariomg são, portanto, também complementares e elucidativas.

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